• Carolina Fernandes

Autonomia não é o que você pensa.


A autonomia é uma das competências da moda no ambiente corporativo. Mas por não ser bem compreendida, acabamos fazemos mal uso dela. Quando pedimos mais autonomia para nossos chefes, estamos querendo mais espaço de atuação, flexibilidade e menos vigilância. Do outro lado, muitas lideranças relacionam autonomia com uma ausência total de regras.

Aqui conto o que o livro Autonomia, Resiliência e Protagonismo, da Renata Jubram, me ensinou sobre o tema.

O que realmente significa autonomia

Autonomia quer dizer “governar a si mesmo’, ou seja, ter senso crítico, capacidade de equalizar as regras de acordo com cada situação (bom senso), ser pró-ativa, tomar suas próprias decisões, fazendo escolhas e assumindo a responsabilidade por elas. Uma pessoa autônoma age em prol do bem comum, dando sua contribuição para o mundo.

São poucos os indivíduos realmente autônomos

A heteronomia é a fase do desenvolvimento que acontece entre os 2 e 7 anos, e está ligada ao pensamento concreto. Nela, fazemos interpretações literais sobre as coisas e as normas e condutas vêm do outro, ou seja, desenvolvemos a obediência cega e a ação motivada pelo medo da punição.
Já na fase da autonomia, que começa aos 12 anos, a pessoa exerce um pensamento abstrato. É nesse estágio que começamos a enxergar diferentes soluções para os problemas, produzimos opiniões e desenvolvemos o bom senso.

O grande ponto é que a maior parte população, principalmente no Brasil onde o analfabetismo funcional é gigante, estacionou na fase heterônoma, se tornando adultos imaturos, rígidos em seu pensamento concreto, que seguem regras por medo de punição ou para serem reconhecidos. Têm dificuldade de lidar com questões mais complexas e imprevistos, não conseguem tomar decisões sozinhos e não têm ambição, podem passar a vida inteira no mesmo cargo.

A autora mostra uma pesquisa do INAP de 2015 (infelizmente não encontrei mais recente) onde dentre as pessoas que ocupavam cargos de diretoria e gerência, apenas 25% estavam no nível do pensamento complexo e 34% no intermediário, no qual faz interpretações literais, com algumas intervenções mais elaboradas. Ou seja, muitas vezes, os líderes sequer conseguem compreender o que dizem as diretrizes e os códigos de conduta da empresa.

E engana-se quem acha que isso “é coisa de gente mais velha”. O livro apresenta outra pesquisa de 2015, do LinkedIn, onde 63% dos brasileiros entre 18 e 34 anos se declaram obedientes no trabalho, nunca tendo questionado nenhuma ordem.
A realidade é que todos ainda temos atitudes heterônimas dependendo das circunstâncias.

Podemos concluir que o ensino escolar e universitário precisa melhorar e que as empresas devem ser responsáveis por promover o desenvolvimento dos adultos.

O que se ganha tendo um time autônomo

O indivíduo autônomo não precisa de vigilância ou de alguém dizendo o que precisa ser feito. Ele é pró-ativo, comprometido com o seu trabalho e possui um mecanismo interno de autopunição que não o deixa furar compromissos sem que isso tire seu sono. E ele faz isso não por medo de punição ou esperando recompensas, mas por que acredita que é o correto a ser feito. Ao mesmo tempo, é uma pessoa que, por ter pensamento crítico, poderá questionar incoerências e injustiças vindas por parte da liderança, assim como eventuais desvios de energia e prioridades sem sentido.

Dificilmente um líder heterônomo (onde as normas são ditadas pelo outro) consegue lidar com uma equipe autônoma e vice-versa, logo, podemos dizer que a equipe geralmente é o reflexo do seu líder.

Como desenvolver a autonomia da sua equipe

“A construção dessa inteligência ocorre em etapas. Tudo vai depender da riqueza e qualidade dos estímulos que serão apresentados aos indivíduos, e sobretudo, do seus esforços para adaptarem-se às novas situações.” diz a autora.
Promover diálogos, fazer perguntas ao invés de vir com respostas prontas, oferecer oportunidade de resolução de problemas reais, compartilhar aprendizados em grupo, incentivar que as pessoas se interessem em estudar por si mesmas, promovendo espaço para tal… são muitas as possibilidades de promover mais autonomia no grupo. E o líder, por sua vez, precisa desenvolver constantemente seu autoconhecimento e assim, sua própria autonomia.